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Lula can set the bar higher for a new presidency [Africa Is A Country] EN – PT


Lula’s challenge in Brazil: To be successful with proposed reforms, he’d need to take back the anti-systemic appeal stolen by the far-right.

Leia o artigo completo em inglês aqui.

Versão traduzida para o português por Caroline Rodrigues disponível abaixo, com autorização do Africa Is A Country.

Lula pode elevar o nível para uma nova presidência

por Sabrina Fernandes

No Brasil, um retorno de Lula já parece radical por conta da realidade atual. Mas para ser bem-sucedido com as reformas propostas, ele teria de ser ousado e retomar o apelo anti-sistêmico roubado pela extrema-direita.

Lula da Silva do Partido dos Trabalhadores (PT) realizou dois mandatos presidenciais no Brasil entre 2003 e 2010, e ainda é considerado o melhor presidente da história do país. Mesmo a perseguição judicial contra ele e os constantes ataques da mídia não têm sido suficientes para dissuadir grandes parcelas da classe trabalhadora que anseiam por seu retorno. A fragmentada esquerda brasileira não conseguiu produzir outro líder e nome que pudesse igualar o de Lula, portanto, após quase quatro anos do desastroso governo Jair Bolsonaro, a maioria dos partidos e movimentos de esquerda se uniram atrás da candidatura presidencial de Lula em 2022.

O processo é agridoce, já que o PT escolheu o ex-governador de direita de São Paulo, Geraldo Alckmin, como seu parceiro de chapa. Lula acredita firmemente na necessidade de negociar entre as diferentes partes interessadas, mesmo que isso signifique tentar equilibrar o apoio a trabalhadores sem-terra com programas que garantem lucros altíssimos para os grandes negócios do agronegócio. Esta prática é chamada de “conciliação de classes”, mas no PT isto se justifica como uma forma de garantir a governabilidade. Um presidente de esquerda no Brasil não pode reunir apoio suficiente no Congresso sem fazer alianças com o centro e até mesmo com a direita, argumentam, e Lula precisará de toda a ajuda possível para desfazer os danos desde o golpe parlamentar de 2016 contra Dilma Rousseff. Essa, naturalmente, é uma interpretação contraditória, já que foi a prática anterior do PT de amplas alianças com a centro-direita que deixou o vice-presidente de Rousseff, Michel Temer, tão bem-posicionado a ponto de orquestrar o golpe, tornar-se presidente interino e desencadear uma nova etapa de crise que favoreceu a ascensão de Bolsonaro ao poder.

O Brasil está passando por altas taxas de desemprego e inflação, novos índices de encarceramento em massa e violência policial, com mais pessoas vivendo nas ruas e/ou em insegurança alimentar. Os impactos são muito racializados e as comunidades negras e indígenas do Brasil são alvos diretos da política flagrantemente racista de Bolsonaro. Essa distopia é mediada para a  população cristã através da influência de pastores evangélicos fundamentalistas e suas mega igrejas que alertam para os perigos de um governo de esquerda e lançam o discurso anticomunista através do pânico moral. Em geral, a situação é tão ruim que desfazer os danos recentes já é uma tarefa e tanto para um futuro mandato de Lula. O estado traumático coletivo em que os brasileiros se encontram faz parecer que qualquer coisa que seja ligeiramente melhor do que Bolsonaro já é remédio suficiente.

Se Lula voltar, não há dúvidas de que ele estará à altura dessa esperança. Primeiro, Bolsonaro colocou a expectativa tão baixa que quase qualquer um que não seja da extrema-direita já poderia trazer melhorias. Segundo, e mais importante, porque Lula realmente tem um programa de esquerda para combater a fome, criar empregos e estabilizar as instituições liberais do Brasil. O perigo bolsonarista da violência e de um possível golpe de estado está no ar, o que faz com que o retorno de Lula e a implementação de tal programa já aparente radical pelos padrões atuais. Mas, Lula também tem a opção de aproveitar o crescente apoio popular e novas forças regionais para realmente torná-lo radical.

O retorno de governos progressistas a outros países da América Latina proporciona um cenário acolhedor para a presidência Lula com possibilidades de alianças e de integração que podem apoiar uma ação mais corajosa na região e segurar a direita. Um exemplo claro está na agenda ambiental – um ponto de convergência na esquerda ao longo dos últimos anos. Bolsonaro se tornou um pária antiecológico, com níveis recorde de desmatamento combinado com esquemas falsos de compensação de carbono que beneficiam os ricos.

Em resposta, Lula já prometeu responsabilidade ambiental, mas ele deveria oferecer liderança também sobre o assunto. Seu ângulo de soberania nacional é compatível com a conversa sobre a nacionalização de recursos em andamento no Chile e no México, e pode ser reforçado por uma perspectiva de transição energética e de eliminação progressiva dos combustíveis fósseis, conforme proposto pelo colombiano Gustavo Petro. O tamanho da população, do território e da economia do Brasil torna o país indispensável para qualquer plano de acordo verde na região. Assim, ao invés de simplesmente ser melhor que Bolsonaro, Lula tem a responsabilidade de assegurar uma presidência estável e alcançar altos níveis de aprovação pública por outros meios; ele pode ou atender à nostalgia do eleitorado pelos bons velhos tempos de seus mandatos anteriores, ou pode surfar a maré e escolher superar a si mesmo. O último caminho é mais arriscado, mas pode finalmente retomar o apelo anti-sistêmico que a extrema-direita tomou da esquerda anos atrás.

O manifesto eleitoral divulgado pela campanha de Lula até agora enfatiza a necessidade de ferramentas de democracia participativa ao lado de uma reforma política das instituições. No entanto, mudar o rumo para uma política mais radical não é simplesmente uma questão de mais participação. A politização é uma questão principal, especialmente considerando o contexto de uma crise de representação que eclodiu visivelmente nos grandes protestos de junho de 2013 com apelos em massa para rejeitar a política como um sistema apodrecido.

A deterioração dos padrões de vida sob o regime Bolsonaro pode ser suficiente para empurrar as pessoas para Lula, mas não significa que elas estejam se movendo para a esquerda. O desafio, portanto, é pelo menos triplo: eleger um governo progressista e manter o poder, corrigir as recentes perdas em pouco tempo e propor políticas mais ambiciosas que possam conquistar o povo. Isto só é possível se a esquerda brasileira não se restringir à eleição de um novo presidente.

Durante décadas, a fragmentação de esquerda poderia ser resumida como uma das partes afirmando que há limites para as vitórias da classe trabalhadora e a outra falando de socialismo a pequenas multidões. Este descompasso deixou a porta aberta para Bolsonaro entrar e responder à crise de representação dizendo que ele também era contra “tudo isso aí”. Essa versão de apelo anti-sistêmico, no entanto, funciona apenas para o direito de disfarçar seu real aprofundamento do sistema. O flerte de Lula com a pós-política, ao dizer que sua campanha não é uma campanha de esquerda, mas sim pertence à sociedade brasileira, pode obter votos, mas não vai funcionar para implementar a parte de suas propostas que são progressistas em sua natureza. A única maneira de responder ao chamado anti-sistêmico de maneiras que realmente beneficiem a classe trabalhadora agora e a longo prazo é atacar as causas da crise. Sua campanha é forjada através de amplas alianças. O programa, por outro lado, é influenciado por debates de esquerda. Se o objetivo é vencer essa luta, a moderação é uma fraqueza, a radicalização é uma força.